sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Asas


Asas

Brota em meus pés o chão.
Se sigo em frente, avante estrada.
Brotam em meus olhos lágrimas.
Pelo retrovisor despeço de minhas pegadas.

Dia e noite entre curvas e linhas.
E ainda, a folha em branco.
Angústia, desespero, tristeza?
- Não. Não tenho tema.
Não tenho pena.
Nem asas.
Eu sei voar.

Brotam em meu chão, lágrimas.
Se paro e penso,  final. Chegada.
Brota nos meus olhos o fim.
Nasce e recordo minha estrada.
Pelo retrovisor não vejo mais nada.

Brotaram em mim, asas.
Débora Andrade

Ele Por Ela


Ele por ela.

Fala pouco.
Quase nada.
Fechou as portas do seu mundo.
Se enclausurou entre suas certezas que são certas só para ele.
Não quer saber de outras razões.
As suas lhe bastam.
Não tem o mesmo brilho nos olhos.
Nem mesmo uma ponta de entusiasmo ao abrir a boca.
Tornou-se opaco.

Se perdeu entre o passado e o presente.
E não pensa mais no futuro.
Imóvel, apático, constante.
Não grita, não briga, não esbraveja, não chora.
Perdeu suas nuances de emoção.
Perdeu as caras e bocas.

Perdeu-se.

Amanhã é sempre um novo dia.
Mas amanhã, para ele, ainda será.
Portanto, basta o hoje.
E com os pés bem presos ao chão.
Satisfeito com o pouco que a vida lhe entrega.
Sem desejar o céu, o mar, as profundezas do oceano.

Fechar as portas e tornar-se mistério é o jogo.
Parece lhe bastar.

Pobre menino dono da razão.
Emoção. É o que lhe falta.
Débora Andrade

"Sós"


"Sós"

Corre por entre meus lábios as palavras que roubo dos teus olhos.
Teu gosto, por entre meus poros, tem o doce do teu veneno.
Eu te respiro no azul das manhãs.

Em minhas esquinas encontro tuas cenas.
Mas o futuro me acena em silêncio.
Ainda tenho meu passado preso na estante.
E hoje, os segundos contam meu suspirar em teus braços.

Te tenho no instante agora.
Amanhã, volte e me implore.
Me disfarço, vou-me embora.

Me tens como quer e a qualquer hora.
Amanhã, se desfaça. Não demore.

O não é aos laços...
Sim aos nós...

Temos asas.
Nascemos do sopro da liberdade.
E por enquanto, melhor sós!!
Débora Andrade

Alma Rasgada


Alma Rasgada

Rasgue a alma.
Feche os olhos.
Me dê as mãos.

Chegue mais perto.
Sinta o calor.
Sinta este respirar sem pudor.
Abra o peito e mostre-me a dor.

Rasgue a alma.
Pulse o peito.
Respire meu jeito.
Queima minha pele.
No susto, me revele.
Me dê medo.

Rasgue a alma,
A minha roupa.
Me deixa louca.
Me morda a boca.
Toque minha alma.
Não precisa ter calma.

Rasgue...
Me retalhe no teu amanhã.
Grave pedaços de mim no teu gosto.
Mas me esqueça no próximo porto.

Explore meu corpo.
E me tenha medo.
Desassossego.
Desapego.

Rasgue a alma...
Rabisque os desejos.
Perpetue seus sons no meu colo.
Mas, amanhã...

Lave o rosto.
Vista minhas letras.
Mas, me esqueça.

Já vou ter tudo de ti.
E o que há de mim,
Não cabe na alma rasgada.
Débora Andrade

Do Que Sobra


Do que sobra

Vivo de músicas, imagens e palavras.
Meu mundo parece pintura de amador.
Traços imperfeitos contornando minha liberdade de sentir,
de viver, de amar.
Do ponto me sobram as reticências.

É esta minha maneira de viver o improvável,
O incerto, o que transgride e;
Amar o instante que me soma aos dias.
E me sobra sempre a falta de tempo,
Às vezes, a falta de tato.

Tela bem colorida, borrada pelos sustos e repentes destes
sonhos que cismam pesadelos com toque de negro humor.
No fim, me sobram sempre sorrisos.

Céu e Lua dividem o meu dia.
Na mesma tela, na mesma música e na mesma poesia.
Do óbvio e constante, me sobram os encontros entre o a noite e o dia,
Bordando as faces dos escândalos entre os sonhos e fantasias.

E, embora eu não entenda nada de nada,
Nem de tinta ou melodia,
Sei que corre arte nas veias,
Faltando sempre uma dose de agonia.
e, de tudo que me sobra, vou fazendo poesia.
Débora Andrade

Chorei


Chorei

Chorei para sensibilizar minha ira.
Para não gastar poemas em reclamações.

Chorei porque as lágrimas me dão o gosto.
Não por viver nenhum desgosto.

Chorei porque preferi ficar ao partir.
A porta está sempre aberta. Pode sair.

Dei à noite as lágrimas que lavam melancolia.

Chorei porque ainda posso chorar sozinha.
Chorei porque amanhã é dia.
E renasço com o Sol.

E assim, vivo a fé, hipocrisia.
Débora Andrade

Intensitè


Intensitè

Mas se o amanhã surgir,
Te tenho aqui, bem ontem.

Porque aprendi a ser passado, presente e futuro...
Contando com a incerteza de que nossos se cruzariam.

Sou um jogo de palavras,
Entre tempos e espaços criados.

A vida em prece, em passos, em pressa.
A vida em códigos, cifras de saudades e enigmas decifrados.

Mas... se o amanhã surgir...
Sou presente, teu passado, nosso futuro.
Débora Andrade